Quando você ouve a palavra “Esperança” pensa num sentimento puro, quase mágico, e dá uma sensação de que tudo vai dar certo, de que todos os problemas se resolveram, quase como se você estivesse assim imaginando um paraíso na terra.
Este sentimento pode ser um motor, que te impulsiona a buscar seus sonhos e não ficar preso no lugar comum, mas pode ser também uma esperança de tolo, que te faz confiar em promessas falsas e assim gastar suas energias de forma vã.
Esperança como atividade ou como passividade? Qual é mais verdadeira? Será que tem mesmo uma delas que é falsa? E, se existe a possibilidade de que a esperança varie entre boa e má, como você pode saber qual das duas você está sentindo? Por fim, como é que o sentimento da esperança se transforma em ação?
Ah, e também: isso tem alguma coisa a ver com design?
Dá pra descomplicar essa questão. Dá pra aceitar a esperança sendo Bom®, a desesperança sendo Ruim®, e ficar por isso mesmo. Não está errado. Mas…
Me parece que podemos melhorar nossa esperança.
E pra isso seria preciso entender este paradoxo entre esperança e passividade.
A palavra esperança vem do verbo “esperar”. Seria então algo como “ação de esperar”, “prática do esperar”. Mas então a esperança seria uma inação. Não ação. O ser esperançoso seria aquele que acha que as coisas vão cair do céu. Esperança como um tipo de conformismo. Quase uma preguiça.
Isso vai totalmente contra aquele sentimento gostosinho de esperança! Se a esperança fosse isso, ela não seria nada além de otimismo. Nos bons tempos é útil ser otimista, nos maus tempos é útil ser pessimista, mas ser um ou outro cegamente é burrice. E a esperança, por si mesma, pode ser otimismo cego.
Mais precisamente, o sentimento isolado da esperança, sem atenção ao que está ao seu redor, é apenas um otimismo cego. E a esperança como discurso motivacional é só isso. Aí mora o perigo. Essa é a esperança sem malícia, sem precaução, e por fim sem sabedoria.
Se eu estou sendo movido pela esperança, estou sendo movido por uma promessa de que tudo vai dar certo no final, mas sem perceber que não tenho qualquer explicação sobre porque as coisas vão dar certo. A pessoa que tem esperança não sabe disso. Ela não sabe que lhe falta uma explicação. Ela nem mesmo sabe que uma explicação é necessária. Ela apenas confia.
Confiar no que é garantido não é ter esperança. Confiar no que é garantido é ser conservador. Confiar no que é garantido, de certa forma, nem é confiar. A esperança é de alguma forma abandonar garantias.
Esta esperança do discurso motivacional não é uma avaliação da situação concreta. E se ela nos faz sentir que tudo está bem, apesar de não dar nenhuma explicação, ela é perigosa. Porque, além do sentimento da esperança, é preciso também ter as explicações, é preciso ter um plano B para se tudo der errado, talvez um plano C, D e E. Em outras palavras, é preciso agir da melhor forma possível, independentemente de se tudo vai dar certo ou errado no final.
A esperança tem um papel nisso.
Mas esse papel não pode ser só fazer a gente acreditar. Isso é a falsa esperança. A esperança sem explicações. A esperança motivacional.
O papel da esperança não é me dar energia para agir, mas sim me dar calma para agir da melhor maneira possível.
No mundo babilônia de hoje, parece que estamos sempre desesperados. Sempre correndo, sempre em atraso, sempre em dívida. Nunca dá tempo de fazer as coisas importantes, estamos sempre correndo atrás das coisas urgentes. Nossa ação é sempre prejudicada pela ansiedade.
Esperança é um pouco o contrário desse desespero.
Desespero é outra palavra ligada com o verbo “esperar”. Desespero é saber que tudo vai dar errado. É como um grande pessimismo em contraponto com o otimismo da esperança. E o desespero te deixa cego, também. Na hora do desespero você não pensa em mais nada, você só vê a tragédia que está acontecendo bem na sua frente.
Já a desesperança é menos urgente. Ela tem a ver com uma certa tristeza. A desesperança é o sabor da depressão. E você pode sentir desesperança até quando as coisas estão dando certo, se as vitórias te parecem sem sentido. O mundo babilônia de hoje também tem bastante disso, de sucesso que no fundo não faz bem pra ninguém.
Então se a gente pensar a esperança como um contrário de desesperança não vai ser uma grande alegria, eufórica, como o contrário de desespero. A esperança que estamos falando seria uma calma, de aceitar as coisas como elas são. Nem resignação nem ambição. Nem acreditar em falsas promessas, nem abandonar os sonhos.
Se você escolher ver a esperança deste jeito, vai entender que a esperança é o contrário da expectativa. As duas são esperas, mas enquanto a expectativa é uma espera fechada, a esperança é uma espera aberta. A expectativa só se satisfaz se um sonho específico se realizar. A esperança mantém a calma, tanto quando o sonho se realiza quanto quando algo diferente acontece.
No tarô, a esperança é representada pela carta 17, “A estrela”. Ela vem logo depois de uma das cartas mais perigosas do tarô, “A torre” que representa as desilusões, os momentos em que os planos vão por água abaixo. E essa sequência me parecia estranha, mas depois eu descobri que não, que ela faz todo o sentido. Porque é depois que você se desilude (ou seja, abandona suas ilusões) que você consegue realmente aceitar o que a vida trás.
E acontece que o que a vida costuma trazer coisas muito piores e muito melhores do que a gente esperava. Melhor e pior ao mesmo tempo. A vida está muito além da nossa capacidade de prever.
Quem tem expectativa volta a sua atenção para o que não corresponde à expectativa. A expectativa faz você se concentrar nas frustrações da vida.
Me livrar da expectativa permite que eu veja os dois, as frustrações da vida e as boas surpresas também.
Esta esperança não é fácil.
Conseguir esta calma da esperança é um processo.
E esse processo pode demorar muitos anos, requerer muita maturidade. Se você pensar bem, ela tem tudo a ver com o zen do budismo, ou com a ataraxia do estoicismo, ou com muitas outras grandes ideias de grandes escolas por aí. Mas tem alguns macetes.
A espera é um macete bom: Pensar a esperança não como “ação de esperar” mas como “técnica da espera”. Ou seja, toda vez que você encontrar o desespero, pense:
Espera!
E fica lá, esperando. Só esperando. Sem complicar. Até que o desespero passe. Inclusive, você pode deixar a bomba explodir, também, depois que ela já explodiu você não vai estar mais desesperado. Mas você pode tentar resolver as coisas também, é só lembrar que não é preciso se desesperar. O mundo não vai acabar, e quando ele acabar vai estar tudo bem também.
Se esse macete funcionar, você pode tentar uma versão mais avançada, que é fazer exatamente a mesma coisa toda vez que você encontrar a desesperança. Isso é difícil.
Mas o mais difícil de tudo é conseguir fazer isso quando você encontra uma expectativa.
Porque a gente tende a confundir as nossas expectativas com as coisas que verdadeiramente importam. E é provavelmente por isso que a gente nunca encontra o que verdadeiramente importa…
A esperança então é uma espera, no final das contas. Mas é espera com atenção.
Portanto ela não é nem ativa nem passiva. Ela não é nem otimista nem pessimista. A esperança é um equilíbrio.
Então, isso tudo tem alguma coisa a ver com design?
A ideia lugar-comum de esperança é mesmo uma coisa água-com-açúcar e até um pouco ingênua, mas ao invés disso você pode entender a esperança como uma técnica e essa técnica é bem poderosa contra a ansiedade crônica dos sistemas de controle do mundo contemporâneo. Sendo assim, qualquer pessoa pode usar a esperança, se aprender como. E designers não deixam de ser pessoas, como outras quaisquer. Então a esperança deveria ser útil para o designer, à primeira vista.
Só que… é mais complicado que isso.
Designers são seres humanos, né? Né?… Às vezes, parece até que não. Dependendo de como você pensa no design, o projeto das coisas acaba se tornando abstrato, impessoal, descarnado. Então esse é um primeiro problema de pensar “esperança no design”, que isso acaba sendo também uma forma de discutir “o que é design”, e ninguém aguenta mais essa discussão.
Por exemplo, parece que as expectativas são inimigas da esperança, mas como seria fazer projeto sem expectativas? Será que “projeto” não quer dizer “expectativa”? Tipo necessariamente?
Claro, depende de como você entende o projeto.
Mas, por exemplo: um briefing não é praticamente a mesma coisa que um maço de expectativas? O briefing é um documento especificando o que cada uma das partes do projeto espera. É uma cristalização de objetivos e desejos. É portanto o contrário da “espera aberta” que é a esperança.
E poderíamos aplicar o mesmo argumento em muitos outros lugares. As “funções” são ideias preconcebidas de como alguém vai usar um artefato. O “mundo real” do Papanek é basicamente uma expectativa de que padrões de vida europeus deveriam ser levados para o terceiro mundo. Mesmo a “semântica de produtos”, que se diz aberta à polissemia dos artefatos, pressupõe valores totalmente econômicos para os projetos.
Outro exemplo: a ideologia do experimentalismo no design pretende abrir mão do controle no projeto. Essa ideologia mais ou menos acusa o designer de ser prepotente, de se achar deusigner. Mas não é possível ser “livre de controle”, apenas trocar umas formas de controle por outras. E, no fim, a liberdade de controle do experimentalismo significa um abuso do controle estilístico. Ou seja, o experimentalismo usa o poder sedutor da imagem, muitas vezes de forma irrefletida. O exemplo mais óbvio é o a competição de bacanices, no pior estilo David Carson, que se faz de rebelde mas, no fundo, é apenas mais uma engrenagem do mercado. Mais um pedaço de lenha na grande fogueira das vaidades dos designers. Esse experimentalismo abre mão dos controles dos grids e das teorias, para poder usar uma forma de controle mais primitiva, que é a ostentação.
Não se trata de demonizar essas várias “ideologias” do design. Todas elas tem seus lados bons, e de muitas formas elas estão todas buscando um design com harmonia e significado, um design que “traga um sentimento bom“, cada uma a seu modo. E esse sentimento poderia facilmente ser chamado de esperança.
Porém continuamos com o dilema da esperança ser ativa ou passiva.
Na medida em que o design está cristalizando desejos em coisas, ele está também focalizando as esperanças em objetos. Nem precisam ser objetos físicos. Mas o design estabelece formas, determina processos, sistematiza, dá corpo às ideias. Então o design está transformando ideias e valores em produtos e protótipos. Ele está transformando desejos e imaginações indefinidas em coisas e esquemas definidos. E há um paralelo muito forte entre isso e trocar esperanças (abertas) por expectativas (fechadas).
Talvez por isso o design seja tão cheio de dogmas. Definir valores é uma boa receita para transformar um processo vivo em regras estáticas e dogmáticas. Toda vez que alguém descobre uma qualidade em um artefato, e tenta estabelecer uma fórmula pra produzir essa qualidade, está basicamente criando um dogma.
O design não espera, ele vai atrás.
E, por isso, o design não é esperança.
Ou seja, os seres humanos designers podem e devem ter esperança, como aliás todas as pessoas. Mas tentar fazer um design de esperança é um jeito certo de colocar a esperança numa caixa.
Em outras palavras, o designer não vai ser um fabricador de esperanças. A própria noção de tentar fabricar esperanças é um erro, na medida em que tenta determinar algo que precisa ser mantido indeterminado. Cristalizar a esperança é perdê-la. Transformar a esperança em um objetivo de projeto é reificá-la (pra usar a palavra exata). Ou seja, o projeto está dando corpo a uma esperança, e justamente ao fazê-lo está matando um pouco essa própria esperança.
Mas isso também não quer dizer que o design é escravo do capitalismo. É preciso lutar contra a “máquina de fazer desesperança” que é o sistema econômico transnacional contemporâneo. E nada impede o designer de participar desse movimento.
Mas a melhor forma de participar disso é justamente evitar os dogmas. Porque assim seria possível evitar a simplificação superficial da sociedade de controle. Mas isso é difícil, afinal isso é exatamente evitar as respostas prontas. É como insistir em querer sempre ver os vários lados das questões.
E então os problemas nunca vão se “resolver”, pura e simplesmente, eles serão sempre parte de um processo, e nós precisaremos sempre estar prestando atenção ao processo.
Isso é parecido com a esperança como técnica: é uma espera aberta.
Porém essa esperança não é uma resposta para nenhuma questão, não é a solução de um problema, e nem muito menos é uma libertação de algo que nos aprisionava. Pelo contrário. Essa esperança é uma responsabilidade.

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