Rafael Cardoso (doravante denominado carinhosamente {ou não} por RCD) adora reclamar que no design existe um “clima de anti-intelectualismo”. Maior climão. A expressão é útil porque ela é um eufemismo para falar do verdadeiro problema, mas falando eufemisticamente não se ativam os vários preconceitos envolvidos. O livro laranja (que eu {notoriamente} adoro odiar) é basicamente o RCD tentando falar de coisas intelectuais para designers que são anti-intelectuais – uma missão difícil, muito importante, mas fundamentalmente besta: o que importa é pensar o design, e isso só vai acontecer quando os designers aceitarem suas responsabilidades intelectuais. Daí é útil perguntar: por que eles não as aceitam?
De novo: designers não pensam o design. Pq não?
Eu também dei muito murro na ponta dessa faca, mas recentemente tenho me convencido de que essa recusa tem muito a ver com uma frase famosa:
“É difícil fazer um homem compreender algo quando seu salário depende, acima de tudo, que não o compreenda”. – Upton Sinclair (Sabe quem é? Eu também não…)
O que eu quero dizer é que designers sentem que eles vão se dar bem quando os desenhos deles são mais bonitos do que os do cliente, quando os modelos deles são mais legais, quando as pessoas pegam o trabalho deles na mão e acham muito massa. Esse “conhecer com a mão” parece muito mais verdadeiro do que as palavras, do que o blá-blá-blá. No fim das contas, para o designer, importa o produto material, real, concreto. É isso que importa na prática.
Ou, inversamente, quando começa o blá-blá-blá o designer sente que está perdendo terreno. Quando a discussão começa a envolver conceitos complexos, muitos ismos e ideologias, autores famosos e livros sem figura, o designer começa a suspeitar que o desenho bonito dele não vai impressionar muito. O designer suspeita que, quando começa a teoria, logo logo vão querer pedir um desconto.
De certo modo, ele não está errado. A habilidade necessária para desenhar bem, para dar um bom acabamento num protótipo, para conseguir a qualidade material, essa é uma habilidade muito diferente daquela necessária para se distinguir intelectualmente. Se alguém demonstra essa habilidade intelectual, é muito provável que vá superar o designer nos argumentos, porque o designer precisou gastar tempo desenvolvendo a habilidade técnica de projetar. São habilidades diferentes. “Talento é raro, uma combinação de talentos é ainda mais rara” (OTOMO, 1999). O salário do designer depende da habilidade técnica, e quando o intelectualismo começa a ficar pronunciado, o designer acha que o intelectualismo vai substituir a técnica – portanto que o intelectual vai ganhar mais do que ele.

A contradição é que, apesar disso, o designer também não se acredita um trabalhador braçal. Ele quer ser mais do que um marceneiro, mas sem abandonar o mundo das madeiras, dos materiais, dos polimentos, de tudo aquilo que ele consegue “ver com os dedos”. O designer ao mesmo tempo desvaloriza o intelectual (na forma de todo mundo que lê livros demais e fala coisas difíceis de entender) e desvaloriza o braçal (na forma de todo mundo que segue ordens e constrói aquilo que lhe mandam construir). O anti-intelectualismo do design é uma coisa muito particular. Ele se acredita “eminentemente prático”, embora dê à palavra “prática” uma interpretação muito mais de “formas perfeitas” do que de “acontecimentos transitórios”. (E, como todos sabem, “formas perfeitas” são coisas platônicas… 🙄). Portanto o designer vai contra tudo o que ele vê como teoria.
E o problema é justamente esse. Porque para pensar o design é preciso usar ferramentas de pensamento. Definições, contextualizações, análises, crítica. Coisas que o designer instintivamente associa com uma desvalorização da sua habilidade técnica. Quando RCD fala de desconstruir o clima de anti-intelectualismo, ele convida os designers a pensar. E esse convite é muito mais sedutor do que, por exemplo, quando JSL diz que “todas as profissões precisam de uma base teórica”. Duas formas diferentes de dizer a mesma coisa: O designer precisa pensar. Mas pensar é difícil. Não importa quanto RCD doure a pílula, pensar vai continuar difícil.
(E é por isso que eu odeio o livro laranja. Mas tergiverso…)
Voltando ao assunto: para pensar design é preciso compreender a cultura material que produzimos enquanto designers. Não dá pra obter essa compreensão sem algum domínio dos argumentos, dos conceitos, sem ter lido alguns livros difíceis (e sem figuras), sem mergulhar no mundo das palavras. Esse mergulho não é, nem de longe, tão doloroso quanto o designer imagina. Mas é preciso se jogar.
Não adianta ler um livro complicado sem abandonar a convicção de que só vale o que a gente vê com os olhos e pega com a mão. Isso é colocar o dedinho na água sem mergulhar. Dessa forma, você consegue apenas reproduzir o vício do pós-conceito: faz o trabalho manual, técnico, e quando alguém pergunta alguma coisa, você começa a falar uns nomes de autores que soam muito inteligentes. Pensamento como um enfeite artificial. Mais ou menos como a capa de plástico extremamente profissional.

Mas veja bem: a capa de plástico extremamente profissional dá resultado. Um trabalho vistoso impressiona sim. Pensar design não significa esquecer que a qualidade técnica do design tem um impacto. Pensar design significa questionar porque ela causa esse impacto, e se seria possível causar mais impacto de outros modos, e se esse impacto está em sintonia com outras questões. Pensar é ir abrindo o questionamento.
E um designer que consegue pensar o design vai ganhar mais. Esse é o cara que, quando o cliente pergunta alguma coisa, não precisa usar um monte de pós-conceitos e explicações vazias. Ele responde. Ele é capaz de mostrar pro cliente todo o raciocínio que levou ao projeto, tanto o raciocínio intelectual quanto o técnico. Inclusive, quando alguma coisa é daquele jeito só pra ficar mais bonito, esse designer diz isso, ele não cria desculpas. O designer que pensa não é um designer que “não tem prática”, ele é um designer que domina a filosofia da sua profissão.
“O que diferencia você, arquiteta, de um mestre-de-obras, é que você detém a filosofia da sua profissão”. – Uriel Franco Rocha (Sabe quem é? Meu avô, falando pra minha mãe quando ela se formou em arquitetura.)
Hoje, essa filosofia está na academia. Ou seja, o caminho mais eficiente para obter essa habilidade é na pós-graduação. É o único lugar onde vão te dizer que é preciso pensar mais do que você tinha pensado no seu TCC. E aparentemente é só quando o sujeito entra no mestrado que ele vira a chave, e deixa de ver o pensamento como um mero enfeite, e entende que as ferramentas do pensamento (teóricas, será?!?!?!?) ajudam ele a ver mais longe.
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