Me questionei se o título não devia ser “o problema do endeusamento”, mas logo vi que ninguém poderia realmente achar bom isso de ser tratado como um deus, por mais vaidoso que fosse.
E ainda assim, tratam os grandes designers como deuses.
Isso se manifesta de muitas formas. A mais óbvia é um certo fanboy-ismo, uma certa tendência a gente ficar muito impressionado com os designers famosos.
Alguns anos atrás um pessoalzinho se deu ao trabalho de chamar o Heinz Donner (Kebab) pra dar palestra, só porque o cara é rico. Ele só falou asneira, pra surpresa de ZERO pessoas, inclusive aquelas mesmas pessoazinhas que chamaram ele. Ou seja, nem elas conseguiam imaginar que pudesse sair algo que prestasse daquela boca mas, mesmo assim, o fato de ele ser um designer bem sucedido parecia levar à conclusão de que ele deveria ser tratado com respeito.
O raciocínio é: se ele é bem sucedido, e se eu quero ser bem sucedido, eu tenho que imitar ele de alguma forma. Tá certo? Não. Mas por que não?

Antes de descobrir esse porquê, é preciso esclarecer que esse raciocínio poderia estar certo em muitos outros casos, e parece que é no caso do design que é uma grande cagada. Esse nosso campo tem algumas características que complicam esse meio de campo.
Um outro exemplo do endeusamento, bem mais traiçoeiro, é o uso de entrevistas nas pesquisas em design. Mais precisamente, a sobrevalorização das entrevistas. Ou, mais precisamente, que toda pesquisa contemporânea em design parece fazer questão de entrevistar designers famosos como se essa fosse a única fonte de informações concebíveis. Ao passo que pesquisas sobre história do design não entrevistam ninguém e parecem ser muito mais informativas.
Dando nome aos bois, ou, ao menos, escolhendo dois bois de piranha: Nigel Cross e Adrian Forty.
Nos artigos mais antigos, o Cross faz um monte de considerações sobre o design, se baseando em suas experiências pessoais, em noções compartilhadas e por vezes em algum experimento. No entanto, quando ele se propõe a juntar aquilo tudo num grande livro (Design Thinking, 2011), a primeira coisa que ele faz é entrevistar designers de sucesso.
Se a gente comparar com o Forty, pra começo de conversa ele fala de pessoas que já morreram, então nem daria pra entrevistar. Mas o mais importante é o seguinte: ainda que ele esteja falando de projetos influentes, e de designers famosos, ele não trata as opiniões desses designers como fatos. Pra ele os fatos são as coisas produzidas, as datas, as quantidades vendidas e os níveis de demanda. Quando o Forty aborda as preocupações e pensamentos dos designers em questão, a sensação que ele passa é que são pessoas improvisando e dando palpites, arriscando ideias diferentes ao invés de possuirem alguma verdade estável. Quando ele fala do Raymond Loewy, por exemplo, ficamos com a nítida impressão de que as opiniões desse designer sobre o próprio trabalho não valem muita coisa.
Em outras palavras, o Forty não pressupõe que aquelas pessoas sabem o que é design. E se a gente pensa assim, já não faz nenhum sentido endeusar algum designer de sucesso. Porque o designer de sucesso pode não saber o que é design. Ou, mais precisamente, não temos nenhuma garantia de que a compreensão dele sobre o design sirva para fazer outros projetos além daqueles que ele fez. Então, por exemplo, Loewy e Peter Behrens foram bem sucedidos de forma diferente, por motivos diferentes, e é muito difícil acreditar que Behrens pudesse ter feito o que Loewy fez, ou vice versa.

Compare, por exemplo, com dois empresários de sucesso. Ainda que tenham diferentes compreensões da administração de empresas, das estratégias de marketing, filosofias de trabalho diferente, e assim por diante, no final das contas é possível comparar suas atuações, mesmo que seja pelo preço das ações. Num caso ainda mais claro, dois médicos de sucesso basicamente precisam curar doentes. O design é claramente diferente disso (por razões que precisam ser estudadas, com urgência).
E mesmo assim, a pesquisa em design continua tratando entrevistas com designers como fonte de informação sobre design.
Numa tese bastante importante, Sydney Freitas pesquisa o ensino do design através de entrevistas com coordenadores de cursos de design. Seria bastante razoável esperar que essas pessoas soubessem o que é design, não? Mas quando ele pergunta qual é a essência do design, um quarto dos entrevistados se declara incapaz de responder.
Chamar o Heinz Donner pra dar palestra, ou abusar de entrevistas na pesquisa, são formas diferentes de endeusamento da opinião de pessoas que, no fundo, estão inseridas num campo em fluxo, agindo de formas mais ou menos improvisadas, fazendo ou não sucesso por razões que eles não compreendem muito bem.
Endeusar os grandes designers só faz sentido se achamos que o design já está pronto, estabilizado, e que não há muito mais a avançar nesse campo de conhecimento. Mas a gente ainda tem que comer muito feijão…
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