O designer que diz que “design é prática” está se rebaixando. Ele está se colocando em uma posição sem responsabilidade, e por isso sem poder. Há uma razão teórica simples pra isso, mas o problema se manifesta em qualquer nível, tanto teórico quanto prático quanto em outros que não tem nada a ver com essa dicotomia.
O que se quer dizer com a afirmação da prática é que as “viagens na maionese” não importam tanto (para o design ou para o designer) quanto as consequências palpáveis. Isso é válido e louvável, mas extremamente inapto, porque significa que para vencer qualquer disputa contra um designer basta atacá-lo de algum jeito que pareça ser “teórico”.
Vejamos o exemplo dramático da sucessão da liderança da Apple. Todas as vitórias da empresa, ao menos desde a volta de Jobs em 1997, eram claramente devidas ao design, e claramente o braço direito de Jobs para tudo que tivesse a ver com design era Jonathan Ive. Por isso, muita gente achou que Ive era o sucessor “natural” de Jobs. Mas quem ganhou a parada foi um executivo que antes cuidava basicamente da contabilidade.

O que isso tem a ver com a “prática”? Que uma questão claramente secundária pra Apple venceu o design, simplesmente porque o departamento de design não considerou a questão.
É claro que estamos falando de decisões pessoais, então por exemplo, é possível que Jonathan Ive não quisesse ser presidente da Apple. Mas a circunscrição do design à “questões práticas” fez com que a equipe de designers ficasse efetivamente fechada em seu departamento e não tivesse poder dentro da empresa, exceto quando mediada pelo próprio Steve Jobs.
Compare por exemplo com a saída de Jobs da Apple em 1985. Um outro executivo, mais ou menos vindo da contabilidade, armou uma reorganização da empresa que colocaria o Jobs como “New Product Development” (ou seja, designer chefe), e ele preferiu sair da empresa que ele tinha criado.
O foco das preocupações de Steve Jobs sempre foi o design (desde a sua formação, em que a aula de tipografia foi mais marcante que qualquer outra). Mas ele não é colocado na categoria “designer” porque ele se encarregava também de outras coisas, como administrar a tal empresa.
O historiador Adrian Forty mostra como os designs mais bem sucedidos dos séculos 19 e 20 vieram justamente do alinhamento de questões técnica e materiais (que no ideário do design seriam práticas) com questões de tendências ideológicas, correntes estéticas, e visões muitas vezes conflitantes da cultura (um monte de coisa que poderia ser facilmemte enquadrado como “viagem na maionese”). Esse alinhavar de questões foi algumas vezes feito por um duo tipo administrador + artista (que poderíamos comparar com Jobs + Ive), mas por vezes também por designers que se permitiram adentrar questões mais teóricas que práticas.
Eu não quero dizer que o designer tem que ser teórico, nem que falta teoria para os designers, mas apenas que essa divisão entre teoria e prática é um tiro no pé. Ela parece aumentar o poder do designer sobre as coisas palpáveis, tipo como se fosse “pode ficar aí discutindo teoria, mas na prática mando eu”. Mas, no final das contas, ela acaba diminuindo o poder do designer, já que para desfazer as decisões de design basta deslocar a questão para algo “menos prático”.
Talvez uma boa forma de escapar dessa arapuca seja a palavra “palpável”. Ela tem significados que vão desde “prático” até “que faz diferença no final”, e crucialmente passam por “material” sem querer dizer “apenas material”. Etimologicamente, “palpável” seria algo do tipo “que posso sentir na palma da minha própria mão”. Essa preocupação com o sensível é muito importante para o designer, e tem a ver com o que alguns autores chamam de “industriosisade”.
Essa preocupação pode ser poderosa, se tirarmos ela da oposição teoria-prática. Por exemplo, a quantidade de computadores que a Apple está vendendo por ano é seguramente algo palpável, embora possa esbarrar com teorias de economia, eletrônica, cultura, divisão social do trabalho e assim por diante. Ou seja, uma questão pode ser palpável e ainda assim envolver complexidade. Aumentar a complexidade sempre gera problemas, e o foco prático do design tem um lado de tentar evitar comolexidade desnecessária, que é muito bom, contanto que o designer assuma a responsabilidade sobre as complexidades necessárias de um projeto. Aí, nessa batalha com as complexidades inevitáveis, a preocupação com o palpável é um grande poder do designer.
Mas justamente aí se revela que a teoria é útil — e surpreendentemente palpável, se bem utilizada.
Exemplo: existem rios de teoria sobre etnografia. Os designers fazem um uso bastante utilitário dessa teoria, muito preocupado com o palpável, e isso causa um salto qualitativo na relevância cultural de um produto.
Outro exemplo, meio meta-linguístico, dessa relação entre teoria e prática está no seguinte: a desvalorização da teoria pelos designers é parte da divisão social entre trabalho braçal e intelectual. O design, a princípio, se coloca como trabalho intelectual — trata-se de algo mais que marcenaria! Depois de se colocar no campo intelectual, ele volta atrás, e tenta se diferenciar de outras atividades intelectuais por ter esse “componente prático”. No entanto, “prático” é quase a mesma coisa que “braçal”, e assim o design acaba sendo o mais baixo de todos os trabalhos intelectuais, quase caindo para a “segunda divisão” do trabalho braçal.
Essa divisão entre os dois tipos de trabalhos é prática e teórica, mas se olhamos para ela do ponto-do-vista da prática a complexidade é enorme, enquanto do ponto-de-vista teórico torna-se simples: quem se limita a ser “prático” escolhe uma posição social de subalterno. Não está nem certo nem errado isso, simplesmente é assim.
É possível escapar dessa arapuca. Acho que a saída vai depender do momento histórico em que esses designers se encontram. Mas, no nosso momento hoje, a saída envolve teoria porque, sinceramente, nosso entendimento do design é muito capenga.
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